Textos

Algumas Considerações Sobre a Estética Clownesca 

        Para entendermos melhor a estética clownesca, começaremos analisando sua trajetória na história do teatro. Na Grécia Antiga junto às montagens trágicas e cômicas concorrentes nos históricos festivais, havia alguns grupos de atores errantes que se comunicavam através do gesto e da ação sem palavras (mimos), levavam às cidades que visitavam as boas novas sempre com um toque de muito bom humor, acompanhados de música, satirizavam também, a tragédia clássica. Nestes atores aparecem os primeiros elementos do personagem fixo e do clown. Mas, não só neles, as situações clownescas também estão presentes em algumas cenas das peças de Aristófanes, único dramaturgo grego da Comédia Antiga, cuja obra temos o prazer de ter contato. No Império Romano só o gênero cômico prosperou, o clown pôde, então, fazer do teatro seu refúgio seguro nas enumeras representações dos atores populares daquela época.

          Com o surgimento na Idade Média do “Circo de Cavalinhos Italiano”, aparece a figura do clown de circo, tal qual conhecemos hoje. No circo medieval, as atrações principais eram os números com cavalos, exímios domadores exibiam suas habilidades com belos animais. Mas havia os entreatos, intervalos entre uma atração e outra, onde entravam em cena, além de aberrações como: anões deformados, mulheres barbadas etc, figuras engraçadas com rostos pintados, roupas extravagantes e seus números desastrados. Acredita-se que a denominação palhaço surgiu do fato destes cômicos rechearem suas roupas de palha, para amortecer suas quedas. Então, “Paglacci” em italiano. Os palhaços no Circo eram velhos acrobatas, domadores e trapezistas, que não podendo mais exercer sua função com a mesma habilidade da juventude, as demonstravam de maneira ridícula e desastrada. Temos aqui dois grandes elementos clownescos. Também nos números circenses, aparece de forma mais evidente a existência de uma separação política entre os clowns: o clown “branco”, aquele que tem os trajes mais elegantes, o que tem o dom da palavra, da ordem e do comando. Seu comandado o clown “augusto” é modesto, pouco falante ou muitas vezes mudo, traja-se de modo muito humilde, ama seu patrão, mas, na tentativa de ajudar, falha causando grandes confusões. No circo brasileiro também ficou conhecido como “escada”, pois era o apoio para o clown principal fazer seu número.  

          Ainda, na Idade Média, temos a aparição de outra forma teatral muito peculiar: trata-se do teatro popular de companhias itinerantes, que se apresentam em palcos construídos sobre carroções de madeira. Formadas por atores, na maioria das vezes da mesma família, encenavam peças cômicas ou trágicas, roteirizadas pelo próprio grupo ou por um dos membros designados para esta função. Corriam as cidades apresentando suas montagens. Nestas companhias se desenvolveu o personagem fixo com muita força. (Personagem fixo no teatro é aquele que não depende de uma dramaturgia preexistente, é um personagem de situações e livre para improvisar e criar ele mesmo sua dramaturgia.) Destas companhias nasceu no Séc. XVI a “Commedia Dell’arte”, grandes associações de comediantes da Renascença. Personagens fixos notórios como o Arlequim, Doutore, Colombina, Lazzi etc. habitaram os palcos. São eles também, sem dúvida, variações clássicas do clown.

          Podemos perceber que o clown, antes de ser apenas um personagem apresenta-se como uma estética, pois tem gama muito grande de variações, podendo aparecer também somente como alusão, um pequeno “ar da graça” em certos momentos, em textos e personagens. Sempre esteve e está presente na trajetória do teatro.  Segue seu caminho registrado na dramaturgia, como em William Shakespeare, que utilizou os tipos clownescos em tragédias e comédias. Ou então em Bertolt Brecht, que explorou a figura do clown, consciente de seu nato estranhamento, um tipo autônomo, pronto para a improvisação, tão questionador que poderia até mesmo, pôr à prova as convenções do teatro, que o dramaturgo alemão tanto quis desnudar. Na dramaturgia do irlandês Samuel Beckett, os personagens estão mergulhados em jogos solitários, à margem da sociedade, sem perspectivas, como perdidos no emaranhado de fracassos, entregues a situações tragicômicas. Aí, também o clown se apresenta, mas de maneira mais densa e pesada, com um humor paradoxal. O cinema nos possibilitou conhecer um dos maiores clowns do mundo, Carlitos, que dispensa maiores comentários, mas posso dizer que Charlie Chaplin, se aprofundou muito na estética clownesca, e trabalhava com seus atores de maneira muito teatral, ensaiando separadamente cada cena, antes de filmá-la.     

          O Clown parece ingênuo, mas sua aparência é seu principal paradoxo. (Aliás, o paradoxo é seu principal elemento, unir as diferenças é sua tarefa.) O clown é um egocêntrico, sempre o “melhor do mundo” em alguma coisa, mesmo parecendo tão humilde. Tem uma autoconfiança inabalável. Ele é o mutante, e pode colocar-se em qualquer situação, passar-se por médico, louco, bêbado, policial, etc. Mas o que é muito importante se notar é sua capacidade de reconstruir a realidade: quando ele chega transforma o espaço e impõe de maneira vigorosa sua presença, chama a atenção para si. Ele é o desastrado, o anti-social e o questionador, ele coloca em prática suas próprias regras. Antes de qualquer coisa ele quer o riso, a diversão e o entretenimento. Seu universo aproxima-se muito do infantil, por sua capacidade de acreditar em convenções imaginárias e jogos de regras absurdas. Mas, ele também é um político questionador, ele derruba mitos, e debocha das autoridades, da lei e das convenções sociais, ou seja, ele é um crítico.

          O Clown se mantém vivo graças a sua grande versatilidade, a sua capacidade de se adaptar a situações e temas. Com a “Menor Máscara do Mundo”, o nariz vermelho – ou não – de cara pintada – ou não – o clown traz consigo a responsabilidade de um personagem e de uma estética históricos. Que começou a se desenvolver desde os primórdios do teatro, e ainda hoje é fascinante. Mas, as suas possibilidades são infinitas, seu jogo ainda pode ser reinventado inúmeras vezes, em um eterno re-jogo.            

Geraldo Cunha

Revisão de José Ronaldo Faleiro

Junho de 2008.

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